27 de janeiro de 2011

Eu, protagonista. (pra quem gosta de ler, hehe)

A seção Eu, protagonista traz histórias reais que ouço, de convívio, problemas, evangelismos, vitórias; que são tão simples e tão práticas que o nome do personagem principal nem é exposto, pois o protagonista pode bem ser eu ou você.

Meu Senhor, misericórdia! Se aqui já é assim, não quero nem imaginar o inferno... Que calor desgramado! Mano, por que fui inventar de sair de casa pra vir do outro lado da cidade só pra comprar essa porcaria de tênis? Tô ligado, já aprendi a lição de hoje, meu Pai! Não vou dar mais papo pra esse meu ego consumista, não...
Óh, o busão vindo aí!

Tô passando na catraca mas meus olhos estão tentando definir um banco firmeza pra eu sentar, mas só tem cilada. Aqui na frente está vazio do lado de um cara sinistro, tô fora! Já fui roubado numa dessas. Atrás desse cara tem lugar do lado duma velhinha, tô fora ao quadrado. Leva a mal, não. Pode levar meu tênis, celular, até meu cabelo pra vender. Mas sentar do lado de velho... Só reclama da vida, e fala, fala... Velho é muito chato. 
Ah, não vi! Tem lugar do lado de uma princesa alí. Vou lá!
Que isso, mal sentei a mina já levantou pra descer?

E... Não... Ah, meu Deus! Não, não... Tá vindo uma coroa pra cá... Deus, por favor... Eu já tô cansadão. Ah nã...
― Muito calor, não é? - ela fala e dá aquele sorrisinho de vó.
Só dou um sorrisinho de neto jogando videogame e viro pro outro lado.
― Eu até pensei em pegar o ônibus de ar-condicionado... Mas a minha garganta está meio ruim... Aí eu peguei esse mesmo.
Tento esboçar um sorriso na face, mas acho que não deu certo. E o sol ainda está na minha cara pra variar.
― Ah... Olha só que judiação... O sol está bem no seu rosto... - começa a futucar dentro da bolsa e tira um leque. ― Toma! - me empurra o bagulho todo florido.
― Não precisa não, obrigado! 
Toma! - abre o leque pra mim e empurra na minha mão. ― Está com vergonha? - e dá uma gargalhada que me faz rir também.
― Não combina muito com meu estilo. Eu sou homem... - falo brincando.
― E é a cara do meu neto Eduardo! Você tem quantos anos?
― Vinte e um. - Uau! Eu estou conversando com a velha.
― Nossa, o Dudu teria essa idade também se estivesse vivo... Ele morreu ano retrasado.
― Ah... - Lamento de verdade, ela agora está com uma cara meio triste.
― Ele morava comigo, mas quando fez 18 anos foi para os Estados Unidos e morreu em uma batida de carro.
― Hm... - Não sei o que está acontecendo. Mas eu não estou me sentindo normal. Não é porque estou conversando com uma velha e achando legal, é outra coisa que não sei explicar.

― Ele era muito criativo, de uma forma especial. Ele acordava sorrindo... - A velhinha está com uma cara triste mesmo, os olhos cheios d'agua, parece que ainda não superou a perda. ― ...E enquanto eu preparava o café da manhã ele cantava: "Nasce o dia mais uma vez, o sol mal chegou e eu só posso dizer que eu amo você...".
"Fala! Fala pra ela! Vai! Fala!"
Mano, o que é isso? Eu estou sentindo... É... Deus! Mas, vou falar... Vou falar o que?
― E você tem um lindo cabelo, igualzinho ao do Eduardo. Ele também tinha o cabelo cacheado, e dessa cor bonita... - ela passa a mão pelos meus cabelos.
Sorrio e começo a falar com calma: ― Eu nunca tive uma perda na família, mas me lembro quando meu irmão quase morreu... Ele estava jogando bola na rua, quando um carro veio com tudo em cima dele. Foi bem grave, ele ficou em coma. E eu chorava toda noite, sentia um vazio e uma mistura de todos os sentimentos, raiva, pena, sofrimento, amor...
― Ah, eu convivo com isso até hoje... Comecei a tomar remédios pra conseguir dormir, mas não funcionam muito bem e os efeitos colaterais são péssimos, fico tonta e uma vez já até cai. - ela me mostra uma cicatriz perto do joelho.
― Um médico também me indicou remédios, mas antes minha mãe achou uma solução melhor. Ela me levou à igreja. Ela nunca me obrigou a ir, sabe... Mas ela me convidava sempre e eu nunca aceitava; mas nesse dia eu quis ver o que Deus podia fazer por mim.
Agora a senhora me olha, esperando uma resposta.
― Ele fez. Eu nem sabia orar, mas só pedi uma coisa, pro meu irmão não morrer. Mas Deus fez muito mais. Naquela noite quando entrei no meu quarto, não tive medo dos pensamentos que ficavam me assombrando. Assim que deitei na cama eu dormi. E não sonhei com nada, só dormi de um jeito que nem o colchão mais fofo desse mundo iria me proporcionar. Meu irmão saiu do coma dois dias depois e também depois de um mês ele já estava em casa. Ele nunca mais jogou bola, ficou com sequelas na perna esquerda. Mas ele está vivo! - respiro fundo. ― E eu preciso falar que Deus está me dizendo pra senhora falar com Ele, porque o Senhor quer te fazer dormir nos braços Dele. Eu não entendia como de um dia para o outro aquilo tudo que me assustava havia simplesmente acabado e sumido, mas hoje eu sei, eu dormi nos braços de Deus.

Ela vira pra mim olhando nos meus olhos, sorri e deixa uma lágrima cair. Sorrio de volta. Acho que ela vai falar alguma coisa... 

Mas a velhinha levanta e puxa a cordinha.
O que? Ela não vai falar nada? Ah, o leque dela aqui comigo.
― Aqui senhora! -estico o leque pra ela.
― Pode ficar! Pra lembrar de mim! Vou lembrar do que você me disse... Deus te abençoe.
E desceu do ônibus. 
Nossa! Que loucura, mano! Bem, eu acho que essa é a lição de hoje, haha. Ai, meu Deus! Eu te amo!

Comentário rápido:

0 comentários: